2001. Ritual




Para Amália
- 2015 -
Delikatessen Café Concerto
- 2013 -
Senhora da Noite
- 2011 -

Ruas
- 2009 -
Drama Box
- 2005 -
Canto
- 2003 -

Ritual
- 2001 -
Paixões Diagonais
- 1999 -
Garras dos Sentidos
- 1998 -

Tanto Menos Tanto Mais
- 1995 -
Fado
- 1993 -
Mísia
- 1991 -

Clique em um álbum para mais informações

Partice Leconte,
Realizador de cinema


"Mísia tem uma franja muito gráfica. Ela tem também gestos. Posturas. Pretos e brancos. Ângulos e curvas. Traços finos e grossos. É por isso que o que ela faz é mais do que cantar o fado : ela desenha-o." [+]


FacebookYouTubeMySpaceTwitterFlickrSoundCloudiTunes



Ritual (2001)

Sobre o Álbum

O ritual de reencontro com as raízes acabou por determinar a suas próprias regras. Ficou o essencial: o suporte musical tradicional e o regresso aos letristas, mas operou-se a ponte indispensável entre a coerência do projecto e a sua articulação com todo o trabalho anterior. Estabeleceram-se rupturas criativas, mas manteve-se o desejo de investir sentidos novos e modernos no rico património tradicional.

Sejamos claros: voltar à "ortodoxia" de cantar com guitarra, viola e baixa não significa abdicar da busca de novas sonoridades, assinala a necessidade de ritualizar o canto num imaginário início de percurso, marcando, inclusive, fim de um ciclo e o princípio de outro. Contudo, voltar ao fado "pré-amaliano" sem exorcizar a presença enorme de Amália seria um cerimonial errado e contra-natura. Esta é a razão pela qual, sempre com o distanciamento de quem não imita um modelo, Mísia ritualizou a sombra de Amália em quatro variantes diferentes mas complementares.

Primeiro torna a gravar "Lágrima" com intensidade e intencionalidade novas. Em segundo lugar, canta a perda de Amália Rodrigues, num dos temas mais fortes do disco, pedindo a Carlos Gonçalves, o autor da música de "Lágrima" e o grande compositor da última fase da carreira amaliana, que musicasse o belíssimo poema de Mário Cláudio, "Xaile de Silêncio", enviado a Mísia, para Londres, no própio dia da morte de Amália. A Elegia ("Que xaile de silêncio nos deixaste/Que forma tão estranha de viver") ganha corpo no crescendo da voz e na modulação perfeita do verso ("o voo da gaivota mais perfeita"). O terceirto vértice passa pela revitalização. Mísia canta em "Mistério Lunar" a música do Fado Mayer, de Armandinho, que Amália cantava com letra de Linhares Barbosa, assumindo a transformação de um letrista outro, João Monge, que reveste a música de estranhas reverberações contemporâneas: "Dizem que há/na nossa solidão/uma esperança qualquer/um mistério lunar". Por último, Mísia canta uma letra de Amália no que é o derradeiro dos 13 temas do disco (ou 12+1?), "Vivendo sem Mim", com melodia de Mário Pacheco, e acompanhamento ao piano, a evocar, na excepionalidade do tratamento musical, o modo como Amália ensaiava ao piano, sobretudo na fase Alain Oulman.

Se "Lágrima" funciona como fado "fétiche" de Mísia que nunca escondeu que se tratava do fado responsável pela sua opção de se tornar fadista (com a oportunidade imperdível de o revisitar com o acompanhamento do própio compositor), "Vivendo sem mim" é o fado de Amália, que nunca existiu e lhe sobrevive noutra voz, enquanto "Mistério Lunar" recria o repertório clássico e "Xaile de Silêncio" homenageia, sempre mais um registro de celebração do que de viuvez.

Porém, o ritual não se esgota nesta noção múltipla de que a modernidade do fado começa obrigatoriamente com Amália. "Desepero" dá corpo a um poema de Ary dos Santos, com música do Fado Zeca, e Mísia sublinha no grão da voz a violênia do texto, fazendo do verso "possesso desta raiva que te dou" a chave para a explosão final: "E à sombra do ódio que te quero/A voz com que te chamo é o desencanto/E o sémen que te dou o desespero." A voz é rouca e granulosa, possui o texto com uma fúria essencial, não existem artifícios nem cedências. A gravação de todo o disco propicia, aliás, esta "verdade", pois foi feita com a força presencial dos acompanhadores (os "amalianos" Carlos Gonçalves e Joel Pina, guitarra e viola baixo, e o "misiano" Carlos Manuel Proença na viola), sem recomposição de som, em "takes" inteiros, gravadas ao vivo no estúdio, frente a um velho microfone de válvulas.

Do lado do mesmo dramatismo, contextualização do que a fadista chamou, de forma pouco ortodoxa mas feliz, "fados para a veia", poderiamos colocar "O Verso em que Peco" de uma letrista popular. Maria João Dâmaso, o mais próximo de um antigo filão melodramático, que o fado também contém ("Amor vem libertar-me/(...) Antes de amortanhar-me/Traz o verso em que peco/Na tua voz/Que abençoa o pecado"), e "Não guardo Saudade à vida", exemplo perfeito de como a feitura deste disco obedeceu a um iniciático ritual de regresso às origens e de abertura à mudança. Já tentado em concerto, com música do Fado Carriche, o texto sofreu um transporte para a música do quase centenário Fado Saudade, já no momento do trabalho em estúdio. A esta intensidade do sentimento exposto não escapa sequer a cuidadosa encenação vocabular de "Mãos que se desatam", de Manuela de Freitas.

No cerne do disco, e de certo modo a justificar a urgência deste trabalho, aparece o primeiro fado com letra da fadista, "Cor de Lua", também ele a apontar para a lado efémero do poema para ser cantado e, em simultâneo, para uma carga autobiográfica que desencadeia o canto e acende a voz habitada por fantasmas e sintomas de perda: oito dos doze versos das três quadras começam pela mesma palavra, sem ("sem fados que me ensinem a viver (...)/sem cruzes que me salvem desta vida"). Entre outras imagens, uma há que remete para o título: "Sou um pano escuro cor de lua".

E começamos a apercebermo-nos da inevitabilidade de rimas internas, quando pensamos em "Mistério Lunar", ou nos primeiros versos de outro texto de João Monge, "À Beira da Minha Rua", arrepiadamente cantado "a capella": "Era o regaço da Lua/A beira do meu destino".

Até dos três fados que constituem o "comic release" para a concentração trágica dominante, a "matéria lunar" não está ausente: se "Formiga" acentua no "picadinho" o seu lado de divertimento auto-irónico, se "Ainda assim" se cumpre na repetição anafórica de "ainda não", a iniciar cada um dos doze versos, "Duas Luas", também de João Monge, indicia outros rumos. Sob a ligeireza da música do Fado Magala, estabelece uma dualidade nas incidências do destino, escondida em metáfora lunar: "Eu vivo com duas luas/Delas me fiz companhia/Andam cruzadas as duas/E nenhuma me alumia".

Não deixará de surpreender este ilusório predomínio de uma luz fria de raios lunares no mais incandescente dos discos de Mísia, aquele em que ela mais assume a dimensão trágica e fatalista do Fado. A possível resposta estava já no poema que Augustina Bessa-Luís escreveu por medida para ela, "Garras dos Sentidos", todo de antíteses feito e pressentindo a violência das contradições: "Feliz adversidade/Amor são passos perdidos.//(...) são furor obediente,/São frios raios solares."

Da "frieza solar" à incandescência lunar vai apenas um passo que este "Ritual" acaba por consumar. O sabor nocturno deste canto ardente, que queima como os raios da Lua ou o saber desencantado da infalibilidade da perda do amor doem como uma ferida que se sente, com a "alegre inconsciênia" (parafraseando Fernando Pessoa, o grande cantor distanciado das nossas grandezas e misérias atávicas) de viver e a dolorosa "consciência disso".

Mário Jorge Torres

Nota

"... é um disco que mostra um percurso andado". Fazer, desfazer e refazer, sabendo que não existe arte pura e que cada artista deve ter um universo próprio. O meu inferno e o meu paraíso, a minha vida e a minha morte estão contidos neste disco. O meu Fado..."Mísia

Télérama FFFF, Francça.


Tracklisting

Duração: 46'06

01. Não Guardo Saudade A Vida (3'52)
02. Xaile De Silêncio (3'17)
03. Duas Luas (2'50)
04. Desespero (3'45)
05. Decisão (3'49)
06. Cor De Lua (3'32)
07. Formiga (3'02)
08. O Verso Em Que Peco (3'58)
09. Lágrima (5'06)
10. Mistério Lunar (3'54)
11. Ainda Assim (3'03)
12. A Beira Da Minha Rua (2'20)
13. Vivendo Sem Mim (3'42)

Extratos Audio

Soundcloud: clique aqui


Fotos

Mais fotos: clique aqui



© Augusto Brázio



Vídeos

Videoclip "Duas Luas" realizado por Patrice Leconte