Ruas é uma forma de dizer que estou sempre em Lisboa. É um disco que mostra que não se pode estar quase 20 anos a dar a volta ao mundo sem que o mundo passe por mim nem me transforme. Eu sou uma curiosa, uma esponja. O novo disco da fadista está divido em dois capítulos: 'Lisboarium' e 'Tourists'. É num hotel, mesmo ali ao lado de casa, perto da Bica, do Bairro Alto, no pulsar do bairrismo de Lisboa, que Mísia fala, com os olhos a brilhar, da declaração de amor que o seu novo álbum duplo 'Ruas' é a Lisboa. Num disco presta homenagem à cidade. No outro mostra outras cantigas que só não se chamam fados porque não se cantam em português nem têm a guitarra tradicional a emocionar. Em 'Ruas', temos, de um lado, Lisboa. Do outro o resto do mundo. No meio, em comum, temos a poesia. Sim, a poesia, as palavras. Às vezes duras, que explicam uma dificuldade de viver. É um disco que mostra que não se pode estar quase 20 anos a dar a volta ao mundo - eu quando trabalhonão vou nem para o Saldanha nem para a Avenida da República, vou para o mundo! - sem que o mundo passe por mim nem me transforme. Eu sou uma curiosa, uma esponja e creio que era o momento de encontrar nessas outras culturas e nessas outras línguas e géneros musicais os mesmos sentimentos que canto no fado. Esses sentimentos passam muito pela tragédia. Sim, veja-se o caso do tema 'Hurt', dos Nine Inch Nails (NiN), ou 'Love Will Tear Us Apart', do Ian Curtis, dos Joy Divison, ou de 'Pour Ne Pas Vivre Seul', da Dalida. Tudo tem a ver com destino, com a vida, com a morte. Muitas destas pessoas suicidaram-se. São pessoas que, no seu trabalho, conseguiam mostrar a maneira como viviam. Esses sentimentos são muitas vezes cantados no fado. A Mísia vive em Paris desde 2005. Falando do primeiro CD deste 'Ruas', foram as saudades de Lisboa que a levaram a cantar o 'Lisboarium'? Foi uma forma de estar perto de Lisboa, ou de sentir Lisboa, mas estando longe. Na primeira casa em que vivi em Paris ouvia as gaivotas do rio Sena. É um sonho de Lisboa que vem de lá de longe. Por isso é que há um ir e vir, de não se saber muito bem onde é que se está. O 'Lisboarium' é um sonho. E não é só um disco de fado, mas antes um disco das sonoridades que se podem ouvir em Lisboa. Mesmo não sendo poemas seus, a forma como canta pode ser vista como uma declaração de amor à cidade? Sem dúvida. É uma declaração de amor. É uma cerimónia em honra de Lisboa. É uma nostalgia, uma prenda para a cidade, lindíssima, uma das mais bonitas do mundo. Do que sentiu mais falta quando foi viver para Paris? Dos pastéis de nata. (risos) Estou a brincar, porque lá também há. Da luz, evidentemente. É um tópico, mas é o que sinto mais falta: da luz e da minha casa aqui em Lisboa. Este 'Lisboarium' é dedicado ao escritor e professor Eduardo Prado Coelho. A que se deve a homenagem? Conheci-o em Paris, quando fui lá cantar pela primeira vez em 1996. Fazendo parte daquilo a que se chamam intelectuais - e há uma ideia difundida de que os intelectuais não têm coração e não sentem e não se emocionam - ele teve a coragem de dizer que gostava daquilo que eu fazia, numa altura em que eu era muito atacada aqui em Portugal. Tornámo-nos amigos e jantámos três dias antes da morte dele. Sei que ele ficou triste por eu ter ido viver para Paris. É uma forma de eu dizer que estou sempre em Lisboa, mesmo que esteja longe. O segundo disco fala de outras ruas, não é? E chamou-lhe 'Turistas'. Sim, porque não são vozes de Lisboa. Mas são artistas, cantores, músicos, géneros que têm a ver com esta densidade do fado e com a vida. Como chegou a temas como 'Hurt', dos Nine Inch Nails? Esse e o do Ian Curtis são talvez os mais surpreendentes, mais talvez que os japoneses. E são temas que têm um êxito extraordinário. A primeira vez que cantei estes temas foi em Hamburgo. Pensei: 'Quando ouvirem a guitarra eléctrica em cima do palco, pegam no casaco e saem!' Mas adoraram. Este disco está cheio de surpresas, também para mim. Eu tenho 53 anos: eu nunca fui dos Beatles, fui sempre dos Led Zeppelin. De uma coisa mais dura, mais industrial, menos doce. Sempre gostei muito das imagens fortíssimas, da música e dos vídeos dos NiN. E quando ouvi a versão do Johnny Cash, pensei: 'Tenho de cantar isto. Isto é um fado autêntico. Alguém com uma incapacidade de amar, de viver.' Se calhar é menos óbvio quando canta o Trent Reznor. Sim, mas com o Johnny Cash nota-se perfeitamente. Estamos habituados a ver os fadistas portugueses a ter tanto reconhecimento em França, na Holanda, no Japão e por aí fora. Se calhar, por isso, não surpreende tanto vê-la cantar músicas desses países. E no outro dia acordei de manhã e disse: 'Ai! Falta-me a Nina Simone! Tenho de começar a fazer um 'Turistas II'!' Até eu me surpreendi a cantar esses temas. O fado, da forma tradicional que conhecemos, é, na parte dedicada aos 'Turistas', posto de lado. Não teve receio de juntar tudo - baterias, guitarras eléctricas - com fados no álbum 'Ruas'? O que é importante para mim é que as músicas estão no mesmo nível de sentimentos e emoções. A ideia nasceu num espectáculo que fiz em Paris onde no fim cantava um tema da Edith Piaf. Aí dizia: 'Acho que se a Edith Piaf fosse portuguesa era fadista'. Como vai ser tocar ao vivo? O espectáculo tem duas partes: a primeira parte o 'Lisboarium'. Depois, na segunda, chego ao palco com uma gabardina, uma mala e óculos. E torno-me numa turista, também!
MÍSIA
Metro - Portugal (2009)



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